sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Os seres vivos que estimamos - Entre a Ética e a Ecologia

Nos tempos da rede social Orkut, acredito que tenha sido o biólogo Fabiano Bezerra Menegidio que criou a ironia do argumento “Ad Fofura”, por parte dos criacionistas. Para explicar, por exemplo, um animal (considerado) belo como um tigre é uma prova de um design divino, e portanto, uma evidência contra a evolução.


Essa ironia me inspirou a desenvolver o termo irônico da “Fofofauna” (usado original e paralelamente também pelo YouTuber "Biólogo Henrique", que também pode ser completada pelo termo “Fofoflora”), para explicar um contexto cultural da humanidade a respeito de certas espécies e como são tratadas, preservadas ou mesmo adotadas como algo próximo dos animais (ou plantas) domésticos. Observemos que esse meu termo é irônico, não o conceito, pois o conceito formal que esse termo contorna é o que seja uma “espécie bandeira”.[Nota 1]


Por motivos julgados dentro do subjetivo que é o estético e de uma "admiração cultural" (como seria o caso dos leões, por exemplo, historicamente ligados à bravura e gerando termos como “leal, lealdade”, expressões como “Leão de Judá” ou “Coração de Leão”), até aumentamos a população, por exemplo, de tigres, como tem acontecido nos EUA (em detrimento dos pumas, a variante regional da onça parda, a variedade da América do Sul). Apenas para colocar a coisa em números, no ano de 2014 já eram apontados 5 mil tigres em cativeiro nos EUA, e 3.200 na natureza. Em 2021 os tigres em cativeiro nos EUA já contava 10 mil. Uma população que dobrou em 7 anos.


Estátua De Leão Na Trafalgar Square, Londres. - pt.123rf.com

Mike Tyson com um de seus tigres. - www.minervateam.hu 



Por similaridade, embora o Brasil não possua um mercado para animais selvagens, ainda mais de alta periculosidade e porte, possui uma admiração, como por exemplo no exército, pelas onças pintadas.

A busca por animais de estimação "exóticos" é outra faceta da “Fofofauna”. O caracal (também chamado lince-do-deserto ou lince-persa), o felino selvagem típico de regiões da África e da Ásia Menor, tem ganhado status de animal de estimação, e se lembrarmos um passado mesmo da Paris da virada do século XIX para o XX e primeiras décadas desse século, o guepardo gozava do prestígio de ser um animal de estimação de pessoas ricas.



Uma mulher com seu guepardo num café em Paris, 1932. - www.reddit.com


O feneco (ou raposa-do-deserto), a pequena raposa nativa do deserto do Saara e da Península do Sinai também cresceu como animal de estimação, o mesmo para as lontras. No caso das lontras, o conceito de fofura soma-se a parecerem aos nossos olhos que estão sorrindo, somado ao seu aspecto que nos lembra o caricatural de desenhos animados


Lontra criada como pet. -Pinterest

Por outro lado, a "Fofofauna" também revela o desprezo por espécies que consideramos menos atraentes. Apesar da proximidade evolutiva com os cães domésticos, os pobres coitados dos lobos e coiotes pelo planeta penam como odiados infelizes, apenas para ficar nos carnívoros / predadores não tão distantes do que o homem tem até como animais domésticos há milênios.


Certos casos patológicos, como pequenos porcos do sudeste asiático, já foram uma moda passageira de animais de estimação, gerando abandono e sofrimento de milhares de animais. Os casos temporários ocorrem, sabemos desde os romanos domesticando o extinto leão europeu. Certos animais problemáticos pelo tamanho também possuem seus admiradores e preservadores, inclusive em estruturas de grande escala, assim como a preservação de nossos primos tão próximos como os grandes primatas.

Lembro de um tempo que algumas pessoas tinham micos brasileiros, tão típicos da Mata Atlântica, como animais de estimação, antes de legislações proibitivas e restritivas.

Saindo dos mamíferos, chega-se nas araras e papagaios, caturritas e outras aves de colorido e comportamento agradável e clara inteligência. Estimamos o que nos é ‘antropomorfizável’ com facilidade, e percebemos o que nos atrai com um tanto de avaliação antropomórfica. É mais que comum, percebamos, de tutores conversarem como humanos com seus pets, e até vestí-los com roupas. Também entre as aves temos o caso evidente e muito antigo do pavão, selecionado artificialmente ao ponto que claramente na sua atual variedade não poderia sobreviver muito tempo na vida selvagem.

Fica claro que hienas, pangolins, tamanduás e tatus não são muito estimados em preservação, e mesmo no Brasil são claramente meio desprezados, e aí entra muito de estética, odores e comportamento.

A história mostra a extinção ou quase extinção do que é desprezado ou perseguido para caça ou para evitar o prejuízo de nossas produções, como dodôs, vacas marinhas (Hydrodamalis gigas), tigres da Tasmânia e mesmo casos paradoxais para o que percebemos na atualidade com espécies extremamente próximas, como o magnífico tigre do Cáspio, um tigre que apresentava uma forma de juba.



A vaca marinha e outros Sirenia.


O tigre do Cáspio, também chamado de tigre Persa. - www.eltigre.org


Para citar algo da “fofoflora”, basta percebermos a quantidade de espécies da flora sul-americana, africana, asiática e indiana que cultivamos e mantemos desde pequenas plantas em vasos de interiores até grandes árvores em parques.

A falsa seringueira (Ficus elastica) trazida para o Brasil das terras do Oceano Índico, muito estimadas em praças e ruas, mas que causam problemas desde ratos a gerarem área árida ao seu redor. - Prefeitura de Niterói 


A kudzu, introduzida nos Estados Unidos vinda da Ásia no final dos anos 1800 como uma planta ornamental, foi cultivada amplamente no Sul no início dos anos 1900 para diminuir a erosão do solo. Tornou-se um enorme problema ambiental e um exemplo marcante de uma espécie invasora.[Nota 2] - pt.khanacademy.org


Apenas para complementar nossa reflexão, lembramos que entre as espécies mais numerosas hoje no mundo estão as espécies domésticas, mesmo as consumidas como alimentos, desde grandes bovinos até os delicados morangos. Esse aspecto ecológico de diversidade amparada pela ação humana em grande escala faz parte de nosso pensar sobre a humanidade como força geológica.

Assim, refletimos que a preservação de forma natural, um comportamento orgânico, de certas espécies por uma cultura média da população passa por uma similaridade com o trato que a humanidade desenvolveu e foi bem expresso por Descartes, para infelicidade do pensar humano sobre o tema, do “animal máquina”, que poderia ser “desmontado” para benefício humano, sem preocupação, e na nossa análise, “criado”, para prazer e admiração humana, sem preocupação com seus papéis ecológicos nos ambientes originais, e em completo desprezo ou pressão rumo a extinção das espécies não escolhidas ou preferidas.

Em última análise, a "Fofofauna" nos leva a refletir sobre a moralidade da preservação. O que escolhemos proteger — e o que escolhemos ignorar — reflete um tipo de egoísmo biológico. A inação em relação a espécies que não se encaixam no nosso padrão de beleza, simpatia ou utilidade não é apenas uma falha científica, mas uma falha ética, com consequências ecológicas devastadoras.



Notas

1.Espécie-Bandeira

Uma espécie-bandeira é aquela que, por suas características carismáticas (como beleza, fofura ou raridade), atrai a simpatia e a atenção do público. Elas são usadas por organizações de conservação como um símbolo ou "embaixador" para captar apoio e recursos para a proteção de ecossistemas inteiros.

A ideia por trás disso é que, ao focar os esforços na conservação de uma espécie-bandeira, todo o habitat e as outras espécies que vivem ali (muitas vezes menos "fofas" ou conhecidas) também acabam sendo protegidos. É como um "guarda-chuva" de conservação.

Exemplos e Características

  • Panda-gigante: É talvez o exemplo mais famoso. O panda é o símbolo da WWF (World Wide Fund for Nature) e seu carisma ajudou a mobilizar esforços globais para a proteção de seu habitat.

  • Tigres, leões, elefantes: São exemplos clássicos de megafauna carismática, que são animais grandes e majestosos que facilmente capturam a imaginação do público.

  • Mico-leão-dourado: No Brasil, é um excelente exemplo de espécie-bandeira. Sua imagem é amplamente usada para campanhas de conservação da Mata Atlântica.

2.Espécie invasora

Uma espécie invasora é uma espécie que foi introduzida em uma área fora da sua área nativa e tem potencial de causar dano—ou já causou dano—em seu novo local.

Referências


WWF. More Tigers in American Backyards than in the Wild. July 29, 2014
https://www.worldwildlife.org/stories/more-tigers-in-american-backyards-than-in-the-wild 


The Guardian. How did America end up with the world’s largest tiger population? 21 Sep 2021. https://www.theguardian.com/world/2021/sep/21/tiger-trafficking-america  


en.wikipedia.org - Flagship species 


"What Is An Invasive Species?" National Invasive Species Information Center, última modificação em 24 de maio de 2016, https://www.invasivespeciesinfo.gov/whatis.shtml.



Palavras-chave

#ÉticaeEcologia #PreservaçãoDeEspécies #Biodiversidade #ViésHumano #AnimaisCarismáticos #EspécieBandeira #EcologiaEHumano #Extinção #Megafauna #Tigres #PandaGigante #Lobos #Pangolim #MataAtlântica #EspécieInvasora 

Nenhum comentário:

Postar um comentário