O programa de TV Globo Rural nos últimos meses apresentou duas matérias a respeito da catástrofe da vassoura de bruxa da mandioca, uma doença vegetal fúngica grave, causada por Rhizoctonia theobromae (ou Ceratobasidium theobromae), detectada no Brasil em 2024 (Amapá e Pará). Caracteriza-se por brotos laterais finos e secos, assemelhando-se a vassouras, causando seca da ponta, morte da planta e perdas de 30% a 60% na produção, sendo considerada de alto potencial destrutivo.
Pé de mandioca com vassoura-de-bruxa - Adilson Lima / Embrapa
Muitas pessoas (e até bases de dados mais antigas) associam o termo "Vassoura-de-Bruxa" quase exclusivamente a doença causada por fitoplasma (o antigo "amarelinho") ou à doença de mesmo nome do cacau. Esta doença, específica para o caso da mandioca é uma nova realidade biológica (e ecológica) que está mudando o jogo no Norte do Brasil.
Devemos observar que o fungo que causa a vassoura-de-bruxa no cacau, que já foi um grande problema dessa cultura, é o Moniliophthora perniciosa (anteriormente conhecido como Crinipellis perniciosa).
O termo theobromae no nome do fungo da mandioca vem de Theobroma (o gênero do cacaueiro). Isso acontece porque esse fungo também causa uma doença chamada "seca-dos-ponteiros" ou "vassoura-de-bruxa" em mudas de cacau, mas seu comportamento na mandioca é o que está gerando esse alerta de emergência atual no Norte.
O que está acontecendo nas plantações de mandioca no extremo norte do Amapá não é apenas um problema técnico de agronomia; é uma tragédia humanitária. A vassoura-de-bruxa está dizimando os roçados indígenas, transformando o que seria o sustento de comunidades inteiras em galhos secos e raízes mofadas.
Por que a urgência?
Segurança Alimentar: A mandioca é o "pão" da floresta. Sem ela, não há farinha, tucupi ou beiju. A fome deixa de ser uma ameaça distante para se tornar uma realidade imediata.
Identidade Cultural: Para os povos do Oiapoque, a mandioca é sagrada. O desaparecimento das variedades tradicionais é uma perda irreparável de patrimônio genético e espiritual.
Isolamento: A logística na região é complexa. A ajuda demora a chegar, e o fungo não espera.
Algumas anotações
O Novo Vilão: Ceratobasidium theobromae
Diferente do fitoplasma (que é uma bactéria sem parede), aqui estamos falando de um fungo extremamente agressivo. A mudança de agente etiológico muda tudo no combate:
A Origem: Este fungo é um "primo" próximo do que devastou o cacau na Bahia nos anos 80. Sua detecção recente, encontrado pela primeira vez em março de 2023 em uma comunidade indígena do município de Oiapoque, no Amapá, e perceptível expansão entre 2024/2025, explica por que as comunidades estão tão desesperadas: elas estão lidando com algo novo para o qual as variedades tradicionais de mandioca não têm defesa natural.
O Estrago Real: Perdas de 30% a 60% são catastróficas. Para uma família indígena que vive da roça, perder 60% da produção significa que, em três meses, não haverá farinha no pote. É a quebra total do ciclo de subsistência.
Morte Progressiva: Enquanto o fitoplasma muitas vezes apenas definha a planta, o Ceratobasidium causa a seca do ponteiro e a morte descendente. A planta literalmente "morre de pé", secando de cima para baixo.
Por que esse detalhe "Fúngico" é um alerta de emergência?
Se fosse um fitoplasma, o controle seria focado em insetos (cigarrinhas). Sendo um fungo (Rhizoctonia/Ceratobasidium), o perigo está no solo e nos restos culturais.
O Alerta Crítico: Se o produtor queimar o roçado doente e plantar no mesmo lugar sem tratamento, o fungo, que sobrevive na matéria orgânica, atacará as novas manivas (“estaca”, um pedaço de caule usado para a reprodução, plantio, da planta) imediatamente. É um ciclo de fome que se retroalimenta.
Algumas citações às matérias e ao tema
https://g1.globo.com/economia/agronegocios/globo-rural/noticia/2025/09/09/vassoura-de-bruxa-da-mandioca-ameaca-sobrevivencia-de-comunidades-indigenas-do-amapa.ghtml
https://globoplay.globo.com/v/14346114/
Extras
Moniliophthora perniciosa
Este fungo devastou a produção de cacau na Bahia a partir de 1989. Ele causa o crescimento desordenado de ramos, que secam e morrem, impedindo a formação dos frutos. É um basidiomiceto que se espalha principalmente pelo vento através de esporos.
O "Invasor Fantasma": O que são Fitoplasmas?
Os fitoplasmas são microrganismos peculiares que ocupam um espaço biológico entre as bactérias e os vírus. Eles são, essencialmente, bactérias sem parede celular.
1. Como eles agem?
Diferente de uma mancha na folha que você pode limpar, o fitoplasma vive exclusivamente no floema (o sistema circulatório da planta). Ele "sequestra" os nutrientes e os hormônios que deveriam ir para as raízes e folhas, causando uma confusão hormonal profunda.
2. O Sintoma da "Vassoura-de-Bruxa"
O nome não é poético à toa. O fitoplasma quebra a "dominância apical" da planta. Em vez de crescer um galho forte, a planta começa a brotar dezenas de ramos finos, curtos e fracos no mesmo ponto. O resultado visual é um tufo de galhos que parece uma vassoura velha.
Consequência na Mandioca: A energia da planta é toda gasta nesses brotos inúteis. Como resultado, as raízes (que são o que comemos) não se desenvolvem, ficam pequenas, lenhosas e apodrecem.
3. A Transmissão (O "Vetor")
O fitoplasma não voa sozinho. Ele depende de insetos sugadores (geralmente cigarrinhas).
O inseto pica uma planta doente, absorve o fitoplasma e, ao voar para uma planta saudável, injeta o microrganismo diretamente na "veia" (floema) da próxima vítima.
4. Por que é tão difícil de combater?
Invisibilidade: Não podem ser cultivados em laboratório como bactérias comuns, o que dificulta o estudo.
Resiliência nas Manivas: Se um produtor tira uma maniva de uma planta que parece saudável, mas já está infectada, ele está plantando a doença novamente. No Oiapoque, a troca de manivas entre parentes e aldeias, que é uma prática cultural linda, acaba virando o veículo de dispersão da praga.
Michel Dollet, Viviane Talamini. Fitoplasmas associados às Síndromes do Tipo Amarelecimento Letal das Palmeiras. https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/sanidade-animal-e-vegetal/sanidade-vegetal/planos-de-contingencia-pragas-ausentes/AmarelecimentoLetaldasPalmeirasLivroPragasPriorizadas_1ed2018315352.pdf