terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Sendo água, pode advir de qualquer fonte

O que define a água: a substância que ela é ou o caminho que ela percorreu?


A Ontologia da Substância: Água como Recurso Reciclável


A água, sob a ótica da Química e da Biologia nos seres vivos que a consomem ou a expelem com seus dejetos, não possui memória. Ela é uma configuração simples estável de dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio (H2O) que atua como solvente universal. O fato de uma molécula ter passado por uma nuvem sobre o Himalaia, uma fonte Alpina, por uma estação de tratamento de esgoto, por efluentes da indústria, por um sistema biológico (como na suinocultura, exemplo que inspirou esse texto) não altera sua estrutura fundamental; apenas altera a carga de solutos e patógenos que a acompanham temporariamente.


1. O Processo de Desvinculação (Tratamento)

Para que a água de reuso atinja o grau de potabilidade, ela passa por uma sucessão de barreiras físicas e químicas que eliminam a "história" do efluente:

  • Separação de Sólidos e Digestão Anaeróbia: Remoção da matéria orgânica bruta e conversão de carbono em biogás.

  • Processos Oxidativos Avançados (POA): Utilização de ozônio (O3) ou peróxido de hidrogênio com luz UV para quebrar moléculas complexas (como antibióticos e hormônios) que filtros comuns não retêm.

  • Filtração por Membranas (Osmose Reversa): Uma barreira molecular que permite apenas a passagem do solvente, retendo íons, vírus e bactérias.

reverse osmosis membrane filtration process, gerada com IA
Getty Images

  • Polimento e Remineralização: Ajuste do pH e adição controlada de sais para que a água recupere as características organolépticas ideais.

Um esquema geral de um sistema de purificação de água. - Shutterstock 


2. O Rigor do Controle de Qualidade

A viabilidade do reuso em larga escala depende de um monitoramento técnico contínuo. Enquanto a água de mananciais naturais está sujeita a variações sazonais e poluição acidental, a água de reuso é um produto industrializado.

  • Sensores em Tempo Real: Medição de condutividade, turbidez e carbono orgânico total (TOC).

  • Segurança Redundante: O sistema é projetado para interrupção imediata caso qualquer parâmetro saia da norma técnica, garantindo que o produto final seja, muitas vezes, quimicamente mais puro que a água de rios expostos a defensivos agrícolas.

Desafios da Implementação 



Categoria

Obstáculo

Solução Proposta pela Ciência

Técnico

Controle rigoroso de patógenos e resíduos de antibióticos.

Sistrates (Tratamento de efluentes de alta eficiência).

Econômico

Custo de implementação da tecnologia em pequenas granjas.

Geração de subprodutos (energia e fertilizantes).

Social

Repulsa do consumidor final por produtos "reciclados".

Demonstração por performance (como a cerveja experimental).



3. A Barreira da Percepção: O Fator de Repulsa

O maior desafio para a implementação não é a termodinâmica, mas a psicologia do consumidor. Existe um fenômeno conhecido como "contágio por associação".

  • A Falácia da Origem: O cérebro humano tende a classificar a água pela sua última utilidade conhecida e não pelo seu estado atual.

  • Mitigação por Demonstração: O uso de água de reuso para fabricar cerveja (como no experimento da Embrapa) é uma ferramenta técnica de marketing. Se a água pode sustentar os processos enzimáticos e sensoriais delicados de uma fermentação sem alterar o sabor, a prova técnica da pureza é entregue de forma tangível ao paladar.

4. Escala e Sustentabilidade de Fornecimento

O reciclo de água transforma um sistema linear de consumo em um sistema circular de alta eficiência.

  • Redução de Demanda Primária: Como visto na suinocultura, a reciclagem pode reduzir em até 50% a necessidade de captação externa.

  • Resiliência Hídrica: Cidades e indústrias que adotam o reuso integral tornam-se imunes a secas prolongadas, pois a "fonte" (o efluente) é constante e proporcional ao próprio consumo.

Exemplos de projetos urbanos de reciclagem de água

Dois exemplos de cidades que reciclam água intensamente:

Las Vegas (Nevada)

A cidade é um modelo de "ciclo fechado" de água, reciclando quase 100% da água utilizada em ambientes internos. 

  • Reciclagem de Esgoto: Toda a água que desce por pias, chuveiros e banheiros (águas residuais) é tratada e devolvida ao Lago Mead, de onde é captada novamente para consumo.

  • "Policiais da Água": A cidade possui uma fiscalização rigorosa contra o desperdício, proibindo, por exemplo, o uso de grama ornamental que não seja funcional.

  • Créditos de Retorno: Las Vegas pode retirar do Lago Mead a mesma quantidade de água que devolve após o tratamento (créditos de fluxo de retorno), maximizando seu abastecimento. 

San Diego (Califórnia)

San Diego está implementando um dos maiores programas de infraestrutura hídrica do país, o Pure Water San Diego, para reduzir a dependência de água importada. 

  • Pure Water Program: O projeto transforma águas residuais (esgoto) em água potável de alta qualidade usando tecnologias avançadas como osmose reversa, UV e oxidação avançada.

  • Metas de Produção: Até 2035, o programa visa fornecer quase metade da água da cidade localmente, reduzindo drasticamente o descarte de esgoto tratado no oceano.

  • Reservatório de Demonstração: A água purificada é armazenada em reservatórios locais, como o Miramar, antes de passar por tratamento final e distribuição.

Leitura recomendada


Vivian Souza Cocô e xixi de porcos podem virar água potável (e até mesmo cerveja) com sistema de tratamento; entenda.  g1.globo.com - 22/02/2026

Tecnologia desenvolvida pela Embrapa diminui até pela metade demanda por água nas granjas. Com reciclagem dos dejetos, criações podem reduzir poluição.


Freddie Clayton. The Southwest Offers Blueprints for the Future of Wastewater Reuse. www.resilience.org. (originally published by The Observatory). October 31, 2024


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

A Tirania do Medo: Entre o Alarmismo Ambiental e a Realidade dos Fatos

O debate contemporâneo sobre as mudanças climáticas parece ter abandonado o terreno da ciência para se instalar no domínio da escatologia. Como bem aponta Michael Shellenberger em Apocalypse Never, embora o aquecimento global antropogênico seja um fato comprovado, a narrativa de que estamos à beira de um fim de mundo inevitável é uma construção que serve mais ao poder do que à preservação do planeta.


Essa dinâmica de "crise fabricada" ou exagerada encontra um paralelo perfeito na obra do economista Thomas Sowell. O algoritmo de políticas públicas descrito por Sowell[Nota A] — que vai da fabricação de uma crise à proposta de soluções mágicas que expandem o Estado, culminando em resultados decepcionantes e na negação subsequente — parece ter encontrado no ambientalismo sua maior fronteira. Ao transformar o clima em uma ameaça existencial imediata, cria-se o cenário ideal para o "desejo de transcendência" de uma elite que busca status através da gestão do pânico alheio.

Shellenberger desmistifica essa visão ao apresentar dados que o alarmismo prefere ignorar: a queda drástica na mortalidade por desastres climáticos e a redução das emissões em países desenvolvidos. O autor revela a contradição central do movimento ambientalista moderno: oposição ferrenha às soluções mais eficazes, como a energia nuclear e o uso de gás natural, que poderiam acelerar a transição energética sem condenar as nações mais pobres à miséria energética.

O problema, portanto, não é a falta de soluções técnicas, mas a presença de uma "nova religião" que opera por meio da culpa e do medo. Quando o movimento ambientalista se recusa a aceitar dados positivos e soluções pragmáticas, ele deixa de ser uma luta pela Terra para se tornar uma busca por controle social e capital político.

A alternativa sã ao "fã-clube" do apocalipse não é a negação do problema, mas o realismo humanista. É entender que a humanidade tem a capacidade técnica de tratar a mudança climática como um desafio gerível, sem a necessidade de sacrificar a liberdade individual ou o desenvolvimento econômico no altar de um algoritmo progressista que, historicamente, entrega mais controle e menos resultados.

Extra: O Dividendo Geopolítico do Aquecimento

A narrativa apocalíptica costuma tratar o aumento da temperatura como um evento de soma zero (todos perdem). No entanto, para nações de latitudes elevadas como o Canadá e a Rússia, o fenômeno apresenta uma oportunidade histórica de expansão de soberania e riqueza.

1. A Fronteira Agrícola e o Solo de Permafrost

Atualmente, vastas extensões da Sibéria e do norte canadense são economicamente inviáveis devido ao solo congelado e às janelas de plantio extremamente curtas.

  • A Mudança: O degelo e o aumento da temperatura média expandem a "linha de cultivo" para o norte. Terras antes inúteis para a agricultura em larga escala podem passar a produzir trigo, cevada e colza.

  • Consequência: A Rússia, que já é um dos maiores exportadores de grãos do mundo, consolidaria um poder de "soft power" alimentar sem precedentes, especialmente enquanto regiões equatoriais enfrentam secas.

2. A Rota do Mar do Norte (NSR)

Além da terra, o aquecimento afeta o mar. O degelo do Ártico abre rotas comerciais que podem reduzir o tempo de transporte entre a Ásia e a Europa em até 40% em comparação ao Canal de Suez.

  • Vantagem Russa: A Rússia controla a maior parte dessa costa e já investe em uma frota de quebra-gelos nucleares para taxar e escoltar navios por essa nova "rodovia global".

  • Vantagem Canadense: A Passagem Noroeste poderia transformar o norte do Canadá em um hub logístico estratégico, alterando o fluxo do comércio mundial.

3. O Paradoxo do Investimento

Isso explica, em parte, por que o "algoritmo de Sowell" encontra resistências reais em certos países. Por que a Rússia ou o Canadá aceitariam propostas de "decrescimento" ou restrições severas se o cenário atual promete a eles um aumento de PIB e relevância geopolítica?

"O que é um desastre ambiental para uma ilha no Pacífico é um bônus de infraestrutura e agricultura para o Heartland eurasiano."


Notas


A.Thomas Sowell descreve o seguinte algoritmo de políticas públicas progressistas:


1) Fabricação de crise, geralmente pelo exagero.

2) Proposta de "solução" mágica que envolve, claro, mais Estado e mais dinheiro alheio.

3) Resultados decepcionantes.

4) Resposta evasiva, amnésia.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Vassoura de bruxa da mandioca: Alerta Vermelho no Oiapoque

O programa de TV Globo Rural nos últimos meses apresentou duas matérias a respeito da catástrofe da vassoura de bruxa da mandioca, uma doença vegetal fúngica grave, causada por Rhizoctonia theobromae (ou Ceratobasidium theobromae), detectada no Brasil em 2024 (Amapá e Pará). Caracteriza-se por brotos laterais finos e secos, assemelhando-se a vassouras, causando seca da ponta, morte da planta e perdas de 30% a 60% na produção, sendo considerada de alto potencial destrutivo.


Pé de mandioca com vassoura-de-bruxa - Adilson Lima / Embrapa



Muitas pessoas (e até bases de dados mais antigas) associam o termo "Vassoura-de-Bruxa" quase exclusivamente a doença causada por fitoplasma (o antigo "amarelinho") ou à doença de mesmo nome do cacau. Esta doença, específica para o caso da mandioca é uma nova realidade biológica (e ecológica) que está mudando o jogo no Norte do Brasil.

Devemos observar que o fungo que causa a vassoura-de-bruxa  no cacau, que já foi um grande problema dessa cultura, é o Moniliophthora perniciosa (anteriormente conhecido como Crinipellis perniciosa).


O termo theobromae no nome do fungo da mandioca vem de Theobroma (o gênero do cacaueiro). Isso acontece porque esse fungo também causa uma doença chamada "seca-dos-ponteiros" ou "vassoura-de-bruxa" em mudas de cacau, mas seu comportamento na mandioca é o que está gerando esse alerta de emergência atual no Norte.

O que está acontecendo nas plantações de mandioca no extremo norte do Amapá não é apenas um problema técnico de agronomia; é uma tragédia humanitária. A vassoura-de-bruxa está dizimando os roçados indígenas, transformando o que seria o sustento de comunidades inteiras em galhos secos e raízes mofadas. 


Por que a urgência?

  • Segurança Alimentar: A mandioca é o "pão" da floresta. Sem ela, não há farinha, tucupi ou beiju. A fome deixa de ser uma ameaça distante para se tornar uma realidade imediata.

  • Identidade Cultural: Para os povos do Oiapoque, a mandioca é sagrada. O desaparecimento das variedades tradicionais é uma perda irreparável de patrimônio genético e espiritual.

  • Isolamento: A logística na região é complexa. A ajuda demora a chegar, e o fungo não espera.

Algumas anotações

O Novo Vilão: Ceratobasidium theobromae

Diferente do fitoplasma (que é uma bactéria sem parede), aqui estamos falando de um fungo extremamente agressivo. A mudança de agente etiológico muda tudo no combate:

  • A Origem: Este fungo é um "primo" próximo do que devastou o cacau na Bahia nos anos 80. Sua detecção recente, encontrado pela primeira vez em março de 2023 em uma comunidade indígena do município de Oiapoque, no Amapá, e perceptível expansão entre 2024/2025, explica por que as comunidades estão tão desesperadas: elas estão lidando com algo novo para o qual as variedades tradicionais de mandioca não têm defesa natural.

  • O Estrago Real: Perdas de 30% a 60% são catastróficas. Para uma família indígena que vive da roça, perder 60% da produção significa que, em três meses, não haverá farinha no pote. É a quebra total do ciclo de subsistência.

  • Morte Progressiva: Enquanto o fitoplasma muitas vezes apenas definha a planta, o Ceratobasidium causa a seca do ponteiro e a morte descendente. A planta literalmente "morre de pé", secando de cima para baixo.

Por que esse detalhe "Fúngico" é um alerta de emergência?

Se fosse um fitoplasma, o controle seria focado em insetos (cigarrinhas). Sendo um fungo (Rhizoctonia/Ceratobasidium), o perigo está no solo e nos restos culturais.

O Alerta Crítico: Se o produtor queimar o roçado doente e plantar no mesmo lugar sem tratamento, o fungo, que sobrevive na matéria orgânica, atacará as novas manivas (“estaca”, um pedaço de caule usado para a reprodução, plantio, da planta) imediatamente. É um ciclo de fome que se retroalimenta.


Algumas citações às matérias e ao tema


https://www.embrapa.br/busca-de-noticias/-/noticia/91690274/embrapa-identifica-primeiro-caso-de-vassoura-de-bruxa-da-mandioca-no-brasil 


https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2025/08/30/vassoura-de-bruxa-praga-ameaca-base-da-alimentacao-e-a-fonte-de-renda-de-indigenas-no-norte-do-pais.ghtml 


https://g1.globo.com/economia/agronegocios/globo-rural/noticia/2025/09/09/vassoura-de-bruxa-da-mandioca-ameaca-sobrevivencia-de-comunidades-indigenas-do-amapa.ghtml

https://globoplay.globo.com/v/14346114/  


https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/defesa-agropecuaria/gestao-das-emergencias-agropecuarias/centro-de-operacoes-de-emergencia-agropecuaria/coe-unificado-vassoura-de-bruxa-da-mandioca 


https://revistapesquisa.fapesp.br/fungo-vindo-da-asia-destroi-plantacoes-de-mandioca-da-regiao-norte/ 


Extras

Moniliophthora perniciosa

Este fungo devastou a produção de cacau na Bahia a partir de 1989. Ele causa o crescimento desordenado de ramos, que secam e morrem, impedindo a formação dos frutos. É um basidiomiceto que se espalha principalmente pelo vento através de esporos.

O "Invasor Fantasma": O que são Fitoplasmas?

Os fitoplasmas são microrganismos peculiares que ocupam um espaço biológico entre as bactérias e os vírus. Eles são, essencialmente, bactérias sem parede celular.

1. Como eles agem?

Diferente de uma mancha na folha que você pode limpar, o fitoplasma vive exclusivamente no floema (o sistema circulatório da planta). Ele "sequestra" os nutrientes e os hormônios que deveriam ir para as raízes e folhas, causando uma confusão hormonal profunda.

2. O Sintoma da "Vassoura-de-Bruxa"

O nome não é poético à toa. O fitoplasma quebra a "dominância apical" da planta. Em vez de crescer um galho forte, a planta começa a brotar dezenas de ramos finos, curtos e fracos no mesmo ponto. O resultado visual é um tufo de galhos que parece uma vassoura velha.

  • Consequência na Mandioca: A energia da planta é toda gasta nesses brotos inúteis. Como resultado, as raízes (que são o que comemos) não se desenvolvem, ficam pequenas, lenhosas e apodrecem.

3. A Transmissão (O "Vetor")

O fitoplasma não voa sozinho. Ele depende de insetos sugadores (geralmente cigarrinhas).

  • O inseto pica uma planta doente, absorve o fitoplasma e, ao voar para uma planta saudável, injeta o microrganismo diretamente na "veia" (floema) da próxima vítima.

4. Por que é tão difícil de combater?

  • Invisibilidade: Não podem ser cultivados em laboratório como bactérias comuns, o que dificulta o estudo.

  • Resiliência nas Manivas: Se um produtor tira uma maniva de uma planta que parece saudável, mas já está infectada, ele está plantando a doença novamente. No Oiapoque, a troca de manivas entre parentes e aldeias, que é uma prática cultural linda, acaba virando o veículo de dispersão da praga.

Fitoplasmas também são responsáveis pelo “amarelecimento” das palmeiras.

Michel Dollet, Viviane Talamini. Fitoplasmas associados às Síndromes do Tipo Amarelecimento Letal das Palmeiras. https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/sanidade-animal-e-vegetal/sanidade-vegetal/planos-de-contingencia-pragas-ausentes/AmarelecimentoLetaldasPalmeirasLivroPragasPriorizadas_1ed2018315352.pdf