segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Vassoura de bruxa da mandioca: Alerta Vermelho no Oiapoque

O programa de TV Globo Rural nos últimos meses apresentou duas matérias a respeito da catástrofe da vassoura de bruxa da mandioca, uma doença vegetal fúngica grave, causada por Rhizoctonia theobromae (ou Ceratobasidium theobromae), detectada no Brasil em 2024 (Amapá e Pará). Caracteriza-se por brotos laterais finos e secos, assemelhando-se a vassouras, causando seca da ponta, morte da planta e perdas de 30% a 60% na produção, sendo considerada de alto potencial destrutivo.


Pé de mandioca com vassoura-de-bruxa - Adilson Lima / Embrapa



Muitas pessoas (e até bases de dados mais antigas) associam o termo "Vassoura-de-Bruxa" quase exclusivamente a doença causada por fitoplasma (o antigo "amarelinho") ou à doença de mesmo nome do cacau. Esta doença, específica para o caso da mandioca é uma nova realidade biológica (e ecológica) que está mudando o jogo no Norte do Brasil.

Devemos observar que o fungo que causa a vassoura-de-bruxa  no cacau, que já foi um grande problema dessa cultura, é o Moniliophthora perniciosa (anteriormente conhecido como Crinipellis perniciosa).


O termo theobromae no nome do fungo da mandioca vem de Theobroma (o gênero do cacaueiro). Isso acontece porque esse fungo também causa uma doença chamada "seca-dos-ponteiros" ou "vassoura-de-bruxa" em mudas de cacau, mas seu comportamento na mandioca é o que está gerando esse alerta de emergência atual no Norte.

O que está acontecendo nas plantações de mandioca no extremo norte do Amapá não é apenas um problema técnico de agronomia; é uma tragédia humanitária. A vassoura-de-bruxa está dizimando os roçados indígenas, transformando o que seria o sustento de comunidades inteiras em galhos secos e raízes mofadas. 


Por que a urgência?

  • Segurança Alimentar: A mandioca é o "pão" da floresta. Sem ela, não há farinha, tucupi ou beiju. A fome deixa de ser uma ameaça distante para se tornar uma realidade imediata.

  • Identidade Cultural: Para os povos do Oiapoque, a mandioca é sagrada. O desaparecimento das variedades tradicionais é uma perda irreparável de patrimônio genético e espiritual.

  • Isolamento: A logística na região é complexa. A ajuda demora a chegar, e o fungo não espera.

Algumas anotações

O Novo Vilão: Ceratobasidium theobromae

Diferente do fitoplasma (que é uma bactéria sem parede), aqui estamos falando de um fungo extremamente agressivo. A mudança de agente etiológico muda tudo no combate:

  • A Origem: Este fungo é um "primo" próximo do que devastou o cacau na Bahia nos anos 80. Sua detecção recente, encontrado pela primeira vez em março de 2023 em uma comunidade indígena do município de Oiapoque, no Amapá, e perceptível expansão entre 2024/2025, explica por que as comunidades estão tão desesperadas: elas estão lidando com algo novo para o qual as variedades tradicionais de mandioca não têm defesa natural.

  • O Estrago Real: Perdas de 30% a 60% são catastróficas. Para uma família indígena que vive da roça, perder 60% da produção significa que, em três meses, não haverá farinha no pote. É a quebra total do ciclo de subsistência.

  • Morte Progressiva: Enquanto o fitoplasma muitas vezes apenas definha a planta, o Ceratobasidium causa a seca do ponteiro e a morte descendente. A planta literalmente "morre de pé", secando de cima para baixo.

Por que esse detalhe "Fúngico" é um alerta de emergência?

Se fosse um fitoplasma, o controle seria focado em insetos (cigarrinhas). Sendo um fungo (Rhizoctonia/Ceratobasidium), o perigo está no solo e nos restos culturais.

O Alerta Crítico: Se o produtor queimar o roçado doente e plantar no mesmo lugar sem tratamento, o fungo, que sobrevive na matéria orgânica, atacará as novas manivas (“estaca”, um pedaço de caule usado para a reprodução, plantio, da planta) imediatamente. É um ciclo de fome que se retroalimenta.


Algumas citações às matérias e ao tema


https://www.embrapa.br/busca-de-noticias/-/noticia/91690274/embrapa-identifica-primeiro-caso-de-vassoura-de-bruxa-da-mandioca-no-brasil 


https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2025/08/30/vassoura-de-bruxa-praga-ameaca-base-da-alimentacao-e-a-fonte-de-renda-de-indigenas-no-norte-do-pais.ghtml 


https://g1.globo.com/economia/agronegocios/globo-rural/noticia/2025/09/09/vassoura-de-bruxa-da-mandioca-ameaca-sobrevivencia-de-comunidades-indigenas-do-amapa.ghtml

https://globoplay.globo.com/v/14346114/  


https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/defesa-agropecuaria/gestao-das-emergencias-agropecuarias/centro-de-operacoes-de-emergencia-agropecuaria/coe-unificado-vassoura-de-bruxa-da-mandioca 


https://revistapesquisa.fapesp.br/fungo-vindo-da-asia-destroi-plantacoes-de-mandioca-da-regiao-norte/ 


Extras

Moniliophthora perniciosa

Este fungo devastou a produção de cacau na Bahia a partir de 1989. Ele causa o crescimento desordenado de ramos, que secam e morrem, impedindo a formação dos frutos. É um basidiomiceto que se espalha principalmente pelo vento através de esporos.

O "Invasor Fantasma": O que são Fitoplasmas?

Os fitoplasmas são microrganismos peculiares que ocupam um espaço biológico entre as bactérias e os vírus. Eles são, essencialmente, bactérias sem parede celular.

1. Como eles agem?

Diferente de uma mancha na folha que você pode limpar, o fitoplasma vive exclusivamente no floema (o sistema circulatório da planta). Ele "sequestra" os nutrientes e os hormônios que deveriam ir para as raízes e folhas, causando uma confusão hormonal profunda.

2. O Sintoma da "Vassoura-de-Bruxa"

O nome não é poético à toa. O fitoplasma quebra a "dominância apical" da planta. Em vez de crescer um galho forte, a planta começa a brotar dezenas de ramos finos, curtos e fracos no mesmo ponto. O resultado visual é um tufo de galhos que parece uma vassoura velha.

  • Consequência na Mandioca: A energia da planta é toda gasta nesses brotos inúteis. Como resultado, as raízes (que são o que comemos) não se desenvolvem, ficam pequenas, lenhosas e apodrecem.

3. A Transmissão (O "Vetor")

O fitoplasma não voa sozinho. Ele depende de insetos sugadores (geralmente cigarrinhas).

  • O inseto pica uma planta doente, absorve o fitoplasma e, ao voar para uma planta saudável, injeta o microrganismo diretamente na "veia" (floema) da próxima vítima.

4. Por que é tão difícil de combater?

  • Invisibilidade: Não podem ser cultivados em laboratório como bactérias comuns, o que dificulta o estudo.

  • Resiliência nas Manivas: Se um produtor tira uma maniva de uma planta que parece saudável, mas já está infectada, ele está plantando a doença novamente. No Oiapoque, a troca de manivas entre parentes e aldeias, que é uma prática cultural linda, acaba virando o veículo de dispersão da praga.

Fitoplasmas também são responsáveis pelo “amarelecimento” das palmeiras.

Michel Dollet, Viviane Talamini. Fitoplasmas associados às Síndromes do Tipo Amarelecimento Letal das Palmeiras. https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/sanidade-animal-e-vegetal/sanidade-vegetal/planos-de-contingencia-pragas-ausentes/AmarelecimentoLetaldasPalmeirasLivroPragasPriorizadas_1ed2018315352.pdf

sábado, 10 de janeiro de 2026

Riscos ambientais das baterias de sódio - 2

O Paradoxo da Eletrólise: Sódio Metálico vs. Gás Cloro

Diferente do lítio, que é minerado de salmouras ou rochas, o sódio para baterias de alto desempenho é obtido principalmente através da eletrólise do cloreto de sódio fundido (Processo Downs). A equação química básica é implacável:

2NaCl → 2Na + Cl2


Para cada unidade de sódio metálico produzida para compor os anodos ou precursores das baterias, gera-se uma quantidade estequiometricamente equivalente de gás cloro. Se a indústria de veículos elétricos e armazenamento de rede migrar para o sódio, a produção desse metal deixará de ser um nicho laboratorial para se tornar uma escala de milhões de toneladas.

1. A Saturação das Cadeias de Valor do Cloro

Atualmente, a produção de cloro está vinculada principalmente à demanda por soda cáustica (NaOH). O mercado já luta para equilibrar esses dois produtos: se a demanda por soda sobe, sobra cloro; se a demanda por cloro sobe, sobra soda.

A entrada das baterias de sódio insere uma terceira variável de demanda massiva por sódio puro, sem que haja uma contrapartida de consumo para o cloro resultante. O mercado de PVC, saneamento e defensivos agrícolas não possui elasticidade para absorver o excedente de cloro gerado por uma frota global de baterias.

2. O Risco Ambiental da "Neutralização" de Rejeitos

Quando o cloro não pode ser vendido ou utilizado como matéria-prima, ele se torna um passivo ambiental oneroso. Do ponto de vista técnico, o armazenamento de grandes quantidades de gás cloro é perigoso devido à sua alta toxicidade e reatividade.

Historicamente, a solução industrial para o cloro excedente tem sido a neutralização química para transformá-lo em sais inertes, como o cloreto de cálcio (CaCl2), que é frequentemente descartado no oceano. Embora menos tóxico que o gás cloro, o descarte em escala megatônica altera a salinidade local e a química mineral das águas costeiras, repetindo o erro de "resolução por diluição".

3. A Eficiência Energética e o Custo Oculto

A produção de sódio metálico via eletrólise é um processo extremamente intensivo em energia. Se o subproduto (cloro) não possui valor comercial ou utilidade industrial, todo o custo energético e econômico da operação recai sobre o sódio. Isso pode criar um cenário onde a bateria de sódio, embora feita de materiais "baratos", carregue uma pegada de carbono indireta elevada devido à energia necessária para gerenciar um subproduto que ninguém quer.


Resumo do Cenário Industrial

A transição para as baterias de sódio resolve a dependência mineral do lítio, mas reabre a ferida da indústria de álcalis: a gestão de um halogênio altamente reativo. O sucesso ambiental da bateria de sódio não depende apenas da eficiência da célula, mas da criação de uma nova indústria química capaz de converter o cloro excedente em materiais estáveis ou úteis, sem recorrer ao descarte marítimo massivo que marcou o século XIX.


Leituras recomendadas


Parveen N, Chowdhury S, Goel S. Environmental impacts of the widespread use of chlorine-based disinfectants during the COVID-19 pandemic. Environ Sci Pollut Res Int. 2022 Dec;29(57):85742-85760. doi: 10.1007/s11356-021-18316-2. Epub 2022 Jan 29. PMID: 35091954; PMCID: PMC8799444. 


https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC8799444/

“Desinfetantes clorados são amplamente utilizados em hospitais, instalações de quarentena da COVID-19, residências, instituições e áreas públicas para combater a disseminação do novo coronavírus, pois são eficazes contra vírus em diversas superfícies. Instalações médicas intensificaram a desinfecção rotineira de ambientes internos, instalações e esgoto doméstico. Além de questionar a eficácia desses compostos no combate ao coronavírus, os impactos desses esforços excessivos de desinfecção não foram discutidos em nenhum momento. Os impactos dos desinfetantes à base de cloro no meio ambiente e na saúde humana são revisados ​​neste artigo. Sabe-se que o cloro, em suas formas moleculares e compostas, representa diversos riscos à saúde. A adição de hipoclorito ao solo pode aumentar a concentração de cloro/cloreto, o que pode ser fatal para espécies vegetais se expostas. Quando os compostos de cloro chegam ao sistema de esgoto/drenagem e são expostos a meios aquosos, como águas residuais, muitos subprodutos da desinfecção (DBPs) podem ser formados, dependendo das concentrações de matéria orgânica natural, inorgânica e poluentes antropogênicos presentes. A cloração de águas residuais hospitalares também pode produzir subprodutos tóxicos da desinfecção derivados de medicamentos. Muitos subprodutos da desinfecção (DBPs) são carcinogênicos para humanos, e alguns deles são citotóxicos, genotóxicos e mutagênicos. Os DBPs podem ser prejudiciais à flora e à fauna do corpo hídrico receptor e podem ter efeitos adversos sobre os microrganismos e o plâncton presentes nesses ecossistemas.”

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Riscos ambientais das baterias de sódio - 1

As baterias de sódio são frequentemente celebradas como a "salvação" frente ao lítio, mas elas não são isentas de consequências.

Vamos analisar os principais pontos de atenção ambiental dessa tecnologia:

1. O Desafio da Mineração do Hard Carbon (Carbono Duro)

Enquanto o sódio em si é abundante (extraído do sal de cozinha), o ânodo das baterias de sódio geralmente utiliza hard carbon.

  • A Origem: Esse carbono muitas vezes vem de biomassa ou de precursores sintéticos que exigem processamento em temperaturas altíssimas (1000°C a 1500°C).

  • O Problema: Se a fonte da biomassa não for sustentável ou se o processo de carbonização utilizar energias fósseis, a pegada de carbono inicial da bateria pode ser surpreendentemente alta.

2. Toxicidade dos Eletrólitos e Aditivos

O eletrólito líquido usado nas baterias de sódio não é muito diferente do das baterias de lítio.

  • Sais de Flúor: Muitos utilizam sais como o NaPF6 (hexafluorofosfato de sódio). Em caso de descarte inadequado ou vazamento, esses sais podem reagir com a água e liberar ácido fluorídrico, que é extremamente tóxico e corrosivo para o solo e lençóis freáticos.

  • Metais de Transição: Alguns catodos de sódio utilizam metais como manganês, ferro e níquel. Embora menos problemáticos que o cobalto, a mineração e o refino desses metais ainda geram rejeitos químicos e degradação local.

3. O Dilema da Reciclagem (Economia Circular)

Este é, talvez, o maior risco ambiental por "omissão" de planejamento:

  • Baixo Valor de Revenda: Como o sódio é muito barato e abundante, o incentivo financeiro para reciclar essas baterias é menor do que o das baterias de lítio ou cobalto.

  • Risco de Descarte em Massa: Se não houver políticas rígidas, as baterias de sódio podem acabar em lixões comuns, criando um passivo ambiental gigantesco devido ao volume de unidades produzidas para suprir a rede elétrica e carros populares.


Aspecto

Bateria de Lítio

Bateria de Sódio

Impacto Ambiental da de Sódio

Extração

Invasiva (Lítio/Cobalto)

Abundante (Sal)

Muito menor no estágio inicial.

Toxicidade

Alta (Cobalto/Lítio)

Moderada

Depende dos aditivos do catodo.

Reciclagem

Economicamente viável

Desafio econômico

Alto risco de poluição por descarte.


Uma grave e antiga consequência

A produção de soda cáustica, já no século XVIII chegou a levar posteriormente à necessidade da lei dos álcalis na Grã Bretanha, em 1863. Ali, o excedente de cloreto de hidrogênio resultante passou a ser neutralizado com a reação com cal, e despejo de cloreto de cálcio resultante no mar.

A produção de soda cáustica sempre teve a limitação do que fazer com o cloro excedente, que não pode ser utilizado, mesmo hoje, totalmente, em suas aplicações. Nisso, tocamos em ponto histórico e químico fundamental: o desequilíbrio estequiométrico. Esse é um exemplo perfeito de como a "ação" industrial para resolver uma demanda (soda para sabão e vidro no século XIX, ou baterias hoje) gera uma "omissão" em relação aos subprodutos.


A produção de sódio metálico ou de precursores de sódio para baterias geralmente passa pelo processo de eletrólise do cloreto de sódio (NaCl). Aqui o problema histórico que citamos se repete:

O Fantasma do Cloro Excedente

Para cada tonelada de sódio ou hidróxido de sódio (soda cáustica) produzida, uma quantidade proporcional de gás cloro (Cl2) é gerada. Se a indústria de baterias de sódio escalar para o nível global pretendido, teremos um "tsunami" de cloro no mercado.


Fabricação de cloro-álcali por eletrólise - Getty Images

 

  • Saturação do Mercado: Como notamos, o cloro já é usado massivamente em PVC, saneamento e solventes. O mercado de cloro não cresce na mesma velocidade que a demanda projetada para armazenamento de energia.

  • O Risco da "Neutralização" Moderna: Se não houver onde usar esse cloro, as indústrias podem ser tentadas a retornar a práticas do século XVIII adaptadas: transformá-lo em resíduos menos reativos (como o cloreto de cálcio ou o próprio sal) para descarte. Isso é energeticamente ineficiente e um desperdício de recursos, além de alterar a salinidade e composição química local de ecossistemas se feito em escala massiva.

  • Pegada Ambiental Oculta: O custo ambiental da bateria de sódio não está no sódio, mas no gerenciamento do cloro. Se o cloro se tornar um "rejeito sem valor", o custo da bateria sobe ou o crime ambiental de descarte inadequado aumenta.


A “Lei dos Álcalis”

A Lei dos Álcalis de 1863 na Grã-Bretanha foi uma das primeiras legislações ambientais do mundo, justamente porque as chaminés das fábricas de soda (processo Leblanc) vomitavam HCl, cloreto de hidrogênio, gasoso, destruindo as plantações vizinhas.

Transportando para 2026:

  • Ação: Fabricar baterias de sódio para descarbonizar a matriz energética.

  • Dilemas: Ignorar que a química básica nos obriga a lidar com o cloro. Se não planejarmos a destinação desse subproduto agora, estaremos apenas trocando um problema ambiental (escassez de lítio) por outro (excesso de subprodutos clorados).

Leituras adicionais

en.wikipedia.org - Sodium hexafluorophosphate 

en.wikipedia.org - Alkali Act 1863